2 de jun de 2007

OBRA: ARQUITETURA ou CONSTRUÇÃO?


A Arquitetura Religiosa constitui em todo o mundo num dos mais formidáveis ícones, estruturas terrenas concretas construídas pelo saber e mãos da humanidade, com vistas às coisas lá dos céus, já tendo sido por séculos seguidos um ofício considerado sagrado, ocupação para iniciados dentro de um longo e secreto aprendizado, base até mesmo da maçonaria (cujos ícones são ferramentas de projeto) uma vez que, por princípio e por direito, deveriam essas mesmas edificações servir ao propósito sagrado do entreato de um religamento (ou da tentativa de) com outras dimensões, comportamento mais ou menos universal, mas nem por isso aceitável em si mesmo, ato que vem do original em latim ´´religgiare´´ (religião), de nós, pequeninos e insignificantes humanos, tentando construir pontes conectadas ao grandioso, com o além, com o incomensurável, sempre numa relação de escala, aliás, como tudo que é relacionado nessa vida.

Ocorre que, em pleno epicentro da Terra Vermelha, desde que éramos curiosos estudantes na UEL, víamos nessa Catedral como um diferenciado exemplar do mais raro, horrososo, brutal, bizarro e bisonho de todos os pseudo-edifícios religiosos do planeta jamais construído, onde sentenciei à época a classificação sumária e analógica do agribusiness de, por ordem de contribuição:

1.) ´Grande Galpão Graneleiro´ e um amigo de sala preferiu contribuir com
2.) ´Indústria de Almas S/A´ e um outro, também afeito á técnica proferiu
3.) ´Estábulo Metálico, 2 Águas´, talvez esquecendo-se das 14 mansardas...

Pois este mesmo galpão, mal-travestido de pretensa igrejona, com o argumento de que tratar-se ia de ´´uma enorme tenda´´ em seu memorial descritivo (?), não se tratou, não se trata, nem nunca se tratará de edificação digna para o ato em que se imaginou concebido, uma vez que não se configura arquitetura: O que temos no ponto mais alto de Londrina, é tão somente uma construção, quer uma fé a consagre ou não.

Nesse sentido, favelas também o são, reproduzindo micro-cidadelas medievais orgânica e caóticamente intrincadas, onde só quem mora, entra, bastando conferir o fenômeno naquele país de sotaque carioca, em guerra civil desde os anos 70, figurando agora, quem diria, como detentora de um dos ícones patrimonias da recente e deslumbrada humanidade, graças à uma icônica estátua encarapitada nos gnaisses cristalinos que emergem junto ao mar, moldade em puro concreto armado na figura de um homem barbudo duzentas vezes a sua escala, uma persona já por volta de seus 33 anos, andrajos presumívelmente de época, erigida em elegante e inconfundível estilo Art Deco.

Por sorte, coragem, despeito ou talvez tão e somente vocação, estávamos lá nos acertando, apurando o faro e o foco, em nossas não tão ingênuas opiniões juvenis à respeito de determinadas coisas construídas, no melhor estilo

´´Ué, mas o rei não está nú?´´

Bem visto de perto, aos crentes, aos fiéis e aos congregados de toda ordem e mosaico, nem deveriam importarem-se tanto assim, à sua arquitetura: Dizem que, naquelas escrituras reconhecidas por sagradas, bastará levantarmos uma pedra, e estará sob ela o que tanto procura-se, o que configuraria, paradoxalmente, um desperdício danado de muito e bom dinheiro em tantas e tamanhas obras de construção (terrenos centrais incluídos em mais de 5.500 municípios brasileiros, com tantas almas desassistidas) em qualquer edifícação com vistas ao congregar religioso (qual seja a logomarca ou fonte tipográfica de sua assembléia, exibida á guisa de assinatura) ou então, oras, não foi bem isto o que as escrituras quiseram de fato nos escriturar.

Por outro lado, se as eclésias (reuniões, em latim) também devem servir à outros propósitos, digamos assim, menos celestiais, inclusive com um indulgente estacionamento e curiosa livraria terrenas que fariam os Vendilhões do Templo parecerem-se com o que de fato eram, camelôs, passou da hora de desarmarmos essa tal tenda, por semãntica, improvisada já quê, não somente não habitamos os grandes desertos já quê, por mais que eu tente admirá-la, não consigo sentir algo por alí, seja lá quem ou como ou que de sexo ou matéria o que eu quero sentir, for.

Talvez me falte tão e somente fé ? Frei Galvão, elevado recentemente categoria de arquiteto benemérito pelo IAB de São Paulo, deve estar envergonhado em algum lugar por aí, considerando que o limbo foi desautorizado pelo Sacro Estado do Vaticano, semana dessas.

Me desculpem os distraídos ou excessivamente crédulos, mas... se quisermos MESMO sentir a ´´centelha do especial´´ numa arquitetura consagrada, teremos que adentrar uma Catedral da Sé em São Paulo (Nave-mãe da nossa cria condenada à morte na infância) ou mesmo no Santuário de Schohenstatt, quiçá na singela Capelinha de Madeira da UEL ou em qualquer igrejinha perdida dentro de muitas das cidades do Norte deste Paraná, como tão ricamente bem documentou a Folha de Londrina em matéria do último domingo, 08/JUL/2007.

Se o bolso permitir, sugiro Chartres, Saint Paul, Duomo, Burgess, Rheims, a lista é interminável, prá não lembrarmos que até mesmo catedrais esculpidas no gelo, na pura água congelada pelos séculos, seculorum, conseguem mais e melhor efeito, pôsto o que são e prá que servem.

Mau gosto, despropósito, erro histórico, estupidez, falta de tato, deslumbramento, burrice, distração, desrespeito com o passado, vacilo.

Seja lá o que for, essa pretensa Catedral de Londrina (que ficaria o máximo se isolada no meio de um pasto no alto de uma colina rural para interessantes missas campais e casamentos ao ar livre, já que sua engenharia permite uma mudança de CEP, sem descaracterizá-la) configura uma, de nossas várias micro-parcelas duma crescente vergonha nacional, cegos de tanto revê-la, restando-nos sentar no divã de nossas existências (ou num ´´demodée´´ Confessionário) e percebermos que nada, como uma boa e velha dinamite suíssa do Sr. Alfred Nobel (sinônimo de honrosa distinção), no honrarmos de nossas existências nessa Terra com algo minimamente digno aos Céus, onde uma única janela em cúpula engastada nas aberturas laterais do antigo edifício néo-gótico alemão -miseravelmente demolido- carregava mais arte, cultura, design, trabalho e alma, enfim, ensejava a verdadeira arquitetura, do que o quarteirão inteiro desse indescritivelmente chucro galpão metálico, só faltando uma logomarca em neón da Bunge, Novartis ou Aventis, tão multinacionais quanto a matriz de suas corporações, catolicismo incluído.

Se fomos mesmo capazes de tal infâmia com o perenamente belo num recente passado, então, façamos o mesmo com o transitóriamente horroroso num futuro próximo.

Ou então, que mereçamos todos nossas incompetências, já que também poderemos ser re-conhecidos mundialmente como uma capital donde o insólito também prospera, dada a multiplicidade de estranhamentos recorrentes dos quais estamos todos sendo sujeitos ultimamente, vide arborização destruída, descontrôle populacional entre os pobres, loteamentos à esmo, placas infindáveis, trânsito descortês, ínfimos riachos morrendo, falta de lazer aos necessitados e, pasmem, arte grande sem nem patrocínios parciais, numa terra generosa que se construiu -e bem- de dentro de uma floresta antes intransponível.

Foram-se os áureos tempos de domarmos a Natureza aos nosso princípios: Século novo à frente, já mais que passou da hora, em domarmos a única e verdadeira besta ainda descontrolada:

Nós mesmos.