4 de fev de 2011

TIPUANAS AO FORNO


























O ano, era o de 1953.


A cidade, Londrina, no  Norte do Paraná.


O local, entorno imediato do pátio ferroviário.

Voce decerto não apreciaria um bom e verdejante lote vivo de 400 mudas de Sibipirunas (Caesalpinia peltophoroides), Tipuanas (Tipuana tipu), Ligustros (ligustros japonicum), Ipês Amarelos (Tabebuia chrysotricha) e  Grevíleas (Grevilea bankssi), todas elas, servidas assadas ao forno lento em pequenas doses individuais, por longos nove dias, numa especie de panela de pressão ambulante, quase uma autoclave lacrada vinda diretamente dos infernos.

Mas foi exatamente isto que ocorreu em um dos manifestos de carga da RVPSC, a ferrovia Rede de Viação Paraná-Santa Catarina, com um imenso lote que enchia quatro vagões FHD vindas especialmente de São Paulo.

As espécies eram do arboreto do alemão Johann Reckes, nas bordas dos campos de Santo Amaro, onde hoje uma ponte de concreto do Sistema Imigrantes rasga o bosque onde se situava suas então vastas propriedades.

A aquisição das exatas 400 mudas, uma quantidade verdadeiramente assombrosa, mas comum para o fornecedor que atendia calçcadas e parques de cidades inteiras, foi uma especificação do então arquiteto Carlos Cascaldi, em reuniões com seu irmão Rubens Cascaldi, João Santoro e o prefeito de então, Miltom Menezes, que apoiou a idéia, já que "a turma reclamava de muito sol e pouca sombra".

Quem me conta a história, sempre rindo muito, é Erich Kûnhlein, que fôra especialmente encarregado de recepcionar a valiosa carga viva vinda pelos trilhos.

Para sua surpresa e estarrrecimento, ao abrir as tramelas dos vagões, um bafo de grosso vapor e fumaça branca escapou pela pesada porta corrediça, enfim aberta...



Das quatroscentas árvores, cerca de metade havia sido completamente cozida, graças às trapalhadas sucessivas da própria ferrovia, que foi desengatando o vagão ao longo do percurso, multiplicando por dez vezes o tempo de viagem, estimado em um, dois dias, no máximo.

Ainda assim, duzentas mudas puderam sobreviver à fornalha de ferro sob o sol escaldante do longo percurso e foram imediatamente replantadas nas ruas, com quase nada de orientação, pois na Londrina de 1953, o alinhamento predial e as testadas eram inexistentes, o que dificultava a distribuição das futuras árvores em uma calçada central.

Dificuldade superada pelo jovem Kûnhlein, que resolveu o problema em cada uma das quadras, como hoje podemos obsefvar em qualquer alameda que se preze.















FOTO: YURI S ANDRADE

Já naquele ano, as Terras Vermelhas tiveram a sorte de poder contar com a visão de um arquiteto consciente, cuja proposição não apenas conferiria caráter aos arruamentos, com a adoção de diferentes espécimes por trechos especificados, como sua população ganharia de uma só tacada a generosa sombra, os belos visuais, as flores multicores e a marcação da passagem dos tempos, graças aos ciclos naturais desse belos espécimes.

Com o protocolo do Cidade Limpa vigindo no município, a hora da retomada de nosso caráter de bem receber, deve ser reposto em pauta, com um projeto de massiva rearborização e manejo planejado, devolvendo às pessoas que aqui vivem, convivem e nos visitam, o ambiente amistoso, cordial e bonito, que uma cidade como Londrina enseja.

Afinal, até mesmo as nossas árvores urbanas são "de fora", como todos nós um dia o fomos e que aqui encontraram um clima adequado para criarem raízes, se desenvolverem e produzirem suas belas flores e frutos.


Qualquer semelhança com as nossas próprias existências, nunca terá sido mera coincidência.

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