15 de mar de 2007

:: ASSUNÇÃO TOCA O CORAÇÃO


Curitiba. Ainda como estudante de arquitetura curtindo o frio de passagem,
quando de súbito nosso anfitrião invoca naquele sotaque de nossa pequena
capital
financiada pelo café do interior, ainda Pré-Lerner em sua paisagem:
´SEGuiiNTÊ, SHOW doz LONDRINiÊÊNSSÊÊZ AMANHiÂ, VÁMOZ ?´

Demorei, como de hábito, em entender de QUAIS ele estava se referindo e,
como se já soubesse QUEM seríam, perguntei-lhe ´´ONDE?´´, devolveu-me
´´AH, VAI SER NO ( sei-lá-eu-onde, não saberia dizer onde fica, mesmo...),
VAI SER LEGAL, ARRIGO BARNABÉ e ITAMAR ASSUNÇÂO, JUNTOS !´´
( Ah! Então, tratavam-se DESSES londrinenses !? Mas... Itamar é Pé-Vermelho ? )

Irrelevante. Na cabeça a tecla play foi apertada num crescendo de Benedito
da Silva Beleléu, vulgo ´NÊGO DITO DA SILVA CASCAVEL´, enxerguei as
´ORQUÍDEAS´, sibilantes e suaves como doces serpentes sedutoras, como
nunca tive a chance de vê-los, juntos, o momento era mesmo o do imperdível.

Moídos de tanto andar (mas estranhamente satisfeitos pelos efeitos que isto
nos causava em nossas pernas e corpos), capotamos à tardinha naquele hmm,
Verão de 17°C e chegamos tarde lá no... Bom, ainda não sei onde era o lugar.

Fila enorme, animadíssima, tinha ao menos umas 25 Tribos Urbanas distintas
e, curioso, teria amigos em qualquer uma delas, sem o menor constrangimento,
sem perceber, num recenseamento enxerguei mais mulheres do que homens.

Cabeça inclinada na bilheteria de vidro, a atendende, bonita e sorridente (como
se tivesse alguém bem legal esperando-a prá dar-lhe uns beijões dos grandes) ,
informa-nos algo decepcionada, quase em vergonha: ´Ó: Só sentado no chão´.

Olhei prá trás num ´´E AÍ?´´, aprovamos, nos esprememos um pouco e assim
entramos, mas o engraçado aconteceu: Só tinha um único lugar bem no Apara-
Cuspe, ( formerly The First Row Seat... ) e o tal ´´no chão´´... Bom, era NO PALCO !

Modo de dizer, pois o mesmo tinha dois palmos de altura, intimista mesmo, tipo
Pré Acústico MTV, fiquei muito envergonhado, meu amigo falou ´SENTAÍ!´ rindo
e assim que ( digamos dessa forma ) me sentei, com as pernas voltadas para o
público e o corpo retorcido na espinha à direita prá ver, os dois caras começaram.

Apagaram as luzes e acenderam as do palco e, PQP!, um dos focos, um maldito
spot, estava bem no meio da minha cara, prôs 99,99% dos presentes, era ÓBVIO
que eu fazia parte da BAGAÇA, mas eu, congelado como CONCRETO, i-mu-tá-vel.

Queria olhar de soslaio prô meu amigo, à uns 2 metros dalí, mas tive medo de me
arrebentar em gargalhadas, misto de mal-estar e sensação de absurda impotência,
Arrigo senta-se numa cadeira ao lado de Itamar, como guiando uma, sei lá, Kombi.

Barnabé: ´´ITAMAR JÁ ESTAMOS CHEGANDO EM LONDRINA !´´
Assunção: ´´ARRIGO QUE BOM A BOA E NOVA LONDRINA !´´
Barnabé:´´SIM ITAMAR AGORA UMA VELHA E BOA SENHORA !´´
Assunção: ´´SENHORA DE PERNAS ABERTAS NÃO ARRIGO ?´´

Ou algo assim, a casa rachou, nunca rí tanto, todas as pessoas se mexiam em suas
poltronas, balançavam as cabeças, re-iniciavam gargalhadas, um fuzuê DAQUELES,
relaxei um pouco mais, passei a me sentir um mínimo mais invisível e... por aí fomos.

Assunção: ´´Êh ? ... HOJE EU ESTOU FOR-MAL... ( risos )

No auge Itamar inicia o declame duma de suas músicas, fala de algo do coração,
um coração que bate e pergunta prá todos se os corações de todos batem, alguns
respondem tímidos SIM outros preferiram BATE os mais fervidos O MEU BATE,
insiste e re-pergunta num tom de voz mais alto, quase imperativo, respostas idem,
então foi tocando corações de cada um de seus Músicos e das Belas Vocalistas.

Ele abaixa a voz grave e inconfundível e, prá meu mais absoluto terror existencial,
se aproxima de mim sem o menor constrangimento, eu ainda de espinha torcida
e mais à direita do palco, defronte o tal único lugar vago, ocupado pelo meu amigo.

Itamar toca o próprio peito, microfone à mão: O MEU CORAÇÃO BATE o punho
fechado imitando o próprio, pulsante, ajoelha-se ou abaixa-se diante de mim, não
me lembro, parei de ouvir o mundo, só enxergava por um túnel silencioso o Itamar.

´´SEU CORAÇÃO BATE?´´ e aproximou o microfone com fio da minha previsível
fala, tocando-me o peito em meu coração, com o seu coração na mão, pulsando,
seu coração de mão pulsando em cima do meu coração pulsando concordei: "Ô!"

A casa caiu de novo, Itamar sorri abrindo faróis brancos como se dentes fossem,
sem sair do lugar, o pulso foi diminuindo, a mão defronte ao seu pulso foi assim
diminuindo, o pulso que era seu coração diminuindo, o meu coração em sua mão...

Apagaram-se as luzes, era final do show, PQP!, do nada vieram umas GATAS me
cumprimentar, o que eu fazia, se eu viajava com eles, onde estava hospedado, não,
elas nunca me acontecerem, eu é que estava rindo por dentro, rindo muito mesmo !

Burburinho da saída ( como somos primatas barulhentos e sociáveis! ) quis meu
olhar, ter o que quis o acaso, de cruzar com o olhar sorridente de uma japonesa,
mas não era uma, hmmm, japonesa qualquer. Era... bom, não sei, era uma mulher!

( De fato, nem exatamente uma ´japonesa´ era, aliás, ela era tão japonesa quanto eu um legítimo
Escocês HighLander, me olhava através de meus olhos, sorria só com o seu olhar, divertindo-me.
)

Ela nem era dalí: São daquelas musas que fluem macío em
Londrina e Maringá,
doces brasileiras que te causam dores excruciantes só em vê-las, elas são quase
imperceptíveis e invisíveis para aqueles brindados pelos caprichos da história e da
geografia mais os ascendentes do Kasato Maru, uma dor desejável e
assimilável.

No foyeur, discos em vinil do Itamar com sua banda Isca de Polícia, raridades fora
de catálogo e Arrigo com sua Ópera Reptiliana, abelhas no puro mel,
os CD´s só
seriam uma realidade dalí a uns 10 anos, mas, sei lá, meu bolso estava vazio, acho.

Já à rua, saímos na garôa, expostos ao desonesto frío rajante do Primeiro Planalto,
olhei prá trás por puro instinto e encontrei de nôvo e não mais ao acaso o olhar da
japonesa sorrindo com os seus olhos, meu coração ainda pulsando em minha mão...

´´Seu coração, também bate?´´ Quis perguntar assim prá ela, mas...

CS-C
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Capriche. Não curto Anônimos, mas costumo perdoar os Covardes. (Às vezes, me sinto covarde, então...)